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Por que Mulher Sustentável?

by Mulher Sustentável / 27 de maio de 2020

Há um tempo, no fim de um longo dia de trabalho e responsabilidades, com minhas energias quase se acabando, estava feliz por estar em casa. Por muitos anos (quase vinte) trabalhei à noite como professora na faculdade e naquela em especial, eu estava em casa e tinha a oportunidade de colocar meus filhos na cama antes de dormir, de poder abraçá-los e confortá-los, falando de um repouso que iria repor nossas energias para um novo dia. Uma oração e um beijo antes de dormir sempre tiveram valor para a gente. As crianças logo adormeceram. Eu fui concluir minhas responsabilidades do dia, uma peça processual inacabada, a aula da manhã, o almoço e os lanches do dia seguinte, entre outras coisas. 

Antes de ir para o meu quarto novamente fui ver meus tesouros, que dormiam um sono tranquilo e confiante. Quando olhei para o meu filho mais velho, vi que estava crescendo rápido e me perguntei por quanto tempo ele ainda poderia desfrutar desta paz. Comecei a imaginar a vida dele, como seria num futuro breve: mais compromissos na escola e em tantos lugares para se desenvolver, crescer, competir por uma boa formação universitária, encontros e desilusões amorosas até encontrar o par ideal, festas, competição no mercado de trabalho, horas dedicadas ao progresso econômico, ao estudo constante, família, mais responsabilidades, saúde,…  aliado ao fato de estar em um mundo cada vez mais globalizado, massivo, caótico, com escassez de recursos naturais, dificuldades de toda ordem… Meu coração ficou em alerta.

Quando olhei para minha filhinha, tão pequena, tão linda, tão frágil e ao mesmo tempo com tantos sonhos e ideais, fiquei imaginando se ela teria uma vida como a minha, tão corrida, com tantas responsabilidades, às vezes sufocante. Lembrei de uma pesquisa que a Organização das Nações Unidas havia divulgado sobre a igualdade de gênero no Brasil e a conclusão era pessimista, de que avançamos lentamente e que ainda levaríamos mais ou menos oitenta anos para alcançar patamares semelhantes aos dos homens. Fiquei revoltada ao imaginar o tamanho do desafio dela para poder realizar seus sonhos, que provavelmente ela teria que passar pelos mesmos problemas e dificuldades. Apesar de eu não me considerar uma mulher vulnerável, nem do ponto de vista educacional, nem social, nem econômico, já passei por muitos preconceitos e constrangimentos relacionados à desigualdade de gênero. Lembrei da minha sobrinha, um pouco mais nova que minha filha, que também deveria estar dormindo, uma menina que também é cheia de sonhos, negra, linda, com muita energia e pensei se ela sofreria ainda mais. Oitenta anos para uma igualdade? Minhas netas, bisnetas, talvez alcancem? Lembrei da vida de minha mãe, de minha sogra, de minhas avós, bisavós,… e fiquei angustiada. Parece que vamos continuar trabalhando, correndo com a vida, cumprindo com as nossas responsabilidades na família, no trabalho, na comunidade, na sociedade, esgotando nossas energias até o fim. Claro que perdi o sono com tantos pensamentos alarmantes.

Estas preocupações continuaram a ocupar a minha mente e eu comecei até a ficar deprimida, cada vez com menos energia, vendo as coisas perderem o sentido. Me sentia uma peça em grandes engrenagens, que a cada dia me faziam levantar da cama e a seguir trabalhando e correndo contra o tempo, até a hora de dormir, para começar tudo novamente no dia seguinte. Entrei em crise. Não podia me conformar com isto! Eu precisava de uma reação, de uma ideia nova. Eu precisava acreditar de mente e coração que eu poderia fazer algo diferente, principalmente para que eu pudesse imaginar um futuro melhor para meus filhos. 

Nesta época eu já estava muito interessada em tudo que estivesse relacionado à sustentabilidade, acreditando que muitos hábitos precisam ser modificados em todos os níveis da sociedade e que a ciência é capaz de nos apresentar soluções inovadoras para os desafios globais relacionados à escassez de recursos, poluição, mudanças climáticas, fome, guerras, … Comecei a me engajar mais nestes desafios porque também sempre acreditei que, por mais difíceis que sejam as previsões, não posso cruzar os braços e deixar de fazer o que ainda dá tempo de mudar. Não suportaria um filho ou um neto, ou qualquer outro ser que ainda não chegou neste mundo, me cobrando, daqui a alguns anos, por que eu me omiti quando poderia ter tomado atitudes positivas que pudessem ter tornado a vida mais feliz.

Há muito tempo, no âmbito das Nações Unidas, o empoderamento das mulheres e meninas aparece como necessário para se atingir um desenvolvimento sustentável. A desigualdade de oportunidades e a exclusão de meninas e mulheres dos benefícios da educação, do trabalho digno, da saúde, da proteção contra a violência são grandes responsáveis pela dificuldade da sociedade conquistar um desenvolvimento econômico aliado ao uso racional dos recursos naturais, de modo a não prejudicar nem a presente, nem as futuras gerações. As meninas e mulheres são as grandes responsáveis pela natalidade de novos seres humanos, pela educação básica, pela atenção com a natureza, são as maiores recicladoras, mas também as maiores consumistas. Já está claro que é preciso garantir que as meninas possam estudar mais e se desenvolver, que possam escolher seus pares, decidir se querem ter filhos ou não, se sim, quando isto deve acontecer e quantos filhos querem ter. Quando maior o desenvolvimento educacional de uma mulher, maior a probabilidade de ela se responsabilizar pela própria vida, participar mais ativamente dos desafios da sociedade, e atuar responsavelmente na criação e educação dos filhos para o mundo, Há anos venho lendo artigos, vendo estatísticas, experiências de programas públicos e empresariais visando à igualdade de gênero e empoderamento das mulheres, sempre me perguntando o que posso fazer diferente na prática, como posso realizar algo que de fato possa garantir às minhas meninas um futuro melhor. 

Assim, forçando mudanças de hábitos, me manifestando e agindo mais na sociedade em que vivo, objetivando o desenvolvimento sustentável, tive experiências, percepções e conclusões que foram me levando a outros passos. Percebi que não adianta, de modo algum, perder energia reclamando e se indignando com ações erradas, tanto por parte dos governos quanto por empresas e pessoas em geral, é preciso agir mais e reclamar menos. Reclamar não é o mesmo que conscientizar e exemplificar. Isto exige sair da zona de conforto e encarar os desafios e críticas na prática. Os julgamentos, as autocríticas e o acesso a alguns grandes pensadores me levaram a uma outra conclusão: ninguém muda ninguém, além de si mesmo. Finalmente constatei e compreendi a famosa frase: “Se você quer ver mudanças no mundo, comece por você”. Como pensar em grandes projetos sem pensar, analisar e provocar mudanças de pensamentos e ações na minha vida? Depois da clareza de consciência, é preciso agir de forma comprometida.

O desenvolvimento sustentável está alicerçado em três pilares que devem ser tratados de forma harmônica: crescimento econômico, utilização adequada dos recursos naturais para não comprometer a vida humana nesta e nas próximas gerações e desenvolvimento humano. Nossas atitudes devem focar na conjugação de todos estes fatores porque são interdependentes para conquistarmos um planeta mais seguro no futuro.  A Agenda 2030 das Nações Unidas traçou 17 Objetivos e 169 metas dirigidas a todos (governos, empresas, cidadãos, …) e eu me engajei no processo, procurando tomar atitudes, chamar mais pessoas pela conscientização e pelo exemplo, com menos julgamentos, enfim, fazer tudo que eu podia para contribuir. 

Numa tarde, pensando na mudança forçada de hábitos no escritório comecei a pensar em mim, me analisando como um objeto dentro do sistema econômico e social, no papel que desempenhava para o desenvolvimento sustentável e tentei me classificar nos três pilares  da sustentabilidade a partir da seguinte questão: como ser humano, como mulher, o que eu sou para o planeta, para a economia, para a natureza, para a sociedade? Se eu pensar que sou humana simplesmente, sou um grão em milhões de toneladas, alguém que deve germinar, crescer, reproduzir, frutificar, contribuir mais e depois morrer, mas que no todo, para a grande massa de humanos, não tem muito valor. Afinal, quando eu morrer, alguns vão chorar por um tempo, mas com toda a certeza o mundo vai continuar sem qualquer problema. Neste sentido, parece que o ser humano se tornou uma commodity, uma massa de “recursos humanos” que precisam se desenvolver, reproduzir, consumir e ceder sua energia vital para o sistema. Olhando assim, somos recursos renováveis, cada vez mais numerosos..

Por outro lado, quando me vi como um objeto isolado de análise, cheguei a outra conclusão. Posso ser um recurso da natureza, da sociedade e da economia que se renova ao se reproduzir, ao gerar filhos, a crescer economicamente, a contribuir para a sociedade, mas que, individual e isoladamente falando, tenho um tempo de vida curto e limitado, “não renovável”. Se me observo individualmente, percebo que sou um ser humano único, como todos são, mas que na prática, poucas atitudes revelam o cuidado com este recurso não renovável da natureza. Olhando assim vi que, apesar de falar tanto em preservação, melhoria e recuperação de recursos naturais, eu tinha poucas atitudes sustentáveis em relação à minha pessoa, afinal, me sentia esgotada com frequência. Com o esgotamento das minhas energias vitais, serei extinta e meu corpo será tratado como resíduo contaminante neste planeta. Isto é um fato inquestionável! 

A partir de então, comecei a me ver de uma maneira diferente e outros questionamentos começaram a habitar a minha mente. De qualquer maneira eu tinha uma certeza: eu precisava encontrar alguma maneira de levar a vida de forma positiva. Ao lembrar dos meus antepassados, seres extintos, me senti feliz e agradecida ao perceber a oportunidade de vida que tenho. Ao mesmo tempo que me vejo como um recurso não renovável, em vias de extinção, como tantos animais, eu tenho consciência e liberdade para agir e fazer minha vida diferente, ir além dos meus instintos. Assim, depois de começar a pensar em como poderia levar a minha vida de forma mais sustentável, não apenas olhando o mundo ao meu redor, mas também eu mesma enquanto ser em vias de extinção plena, comecei a questionar a minha existência, a me perguntar quem eu sou mesmo, para quê eu vivo? Se eu sou um recurso natural não renovável, preciso cuidar e preservar mais o meu corpo para ter mais tempo de vida. Mais tempo para fazer o quê? Será que tenho algo especial para fazer neste planeta enquanto tenho vida? Estas e muitas outras questões começaram a germinar em minha mente. Percebi que somente levar a vida, não me deixava mais feliz. Afinal, minha mente é parte do que sou e não posso simplesmente ignorar meus pensamentos porque isto se transforma em angústia e outros sentimentos que minam minhas emoções, que por sua vez interferem no meu corpo, nos meus relacionamentos, na vida que levo. Decidi dedicar parte do meu tempo a enfrentar estas questões e buscar a felicidade. 

Comecei a buscar conhecimento em livros de autoajuda, de filosofia, em canais no youtube, em blogs, em todos os lugares que poderiam me levar às respostas ao meu grande questionamento sobre o sentido da vida, e da minha em especial, como encontrar a minha missão de vida. Eu li, ouvi e busquei muitas experiências. Hoje, ao escrever este texto, olho para os meus últimos anos e vejo que aventura foi minha vida desde que iniciei esta busca. De fato, ainda sou um ser não renovável em vias de extinção, mas agora, engajada na minha missão de vida e, sem dúvida, uma mulher muito mais feliz. Este blog é parte deste caminho, que agora curto muito mais. Acredito que há muitas pessoas que tem questionamentos e preocupações semelhantes aos meus, que eu nem conheço, mas que, pela internet, poderemos nos encontrar para debater e compartilhar muitas ideias e experiências e todos sermos mais felizes. Quero compartilhar e aprender mais.

Quando penso em Mulher Sustentável, não vejo apenas alguém responsável que busca um mundo melhor, mas um ser que também olha para si mesmo e busca, além da preservação do seu próprio corpo e do seu crescimento econômico, um sentido para a vida, que quer ser pessoalmente mais sustentável e feliz. 

Liliam Radünz

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